Natal: Época de Realizações ou de Frustrações Nutricionais?

Aproximamo-nos de uma das épocas do ano mais maravilhosas em termos gastronómicos, mas mais conturbadas em termos nutricionais. Passamos rapidamente do “o Natal é só uma vez no ano”, para o “não vou comer nada disso porque está carregado de calorias vazias”.

Se há quem tenha a perspectiva de que por ser uma época única, com tantas iguarias típicas deliciosas, se deve permitir e aproveitar, por outro, há quem viva assombrado pela ideia de que tanto açúcar e tanta variedade arrasará os seus objetivos “fits”.

Muitas vezes acabamos embrenhados em procurar a melhor receita para substituir os doces tradicionais. Substituímos as farinhas mais processadas por farinhas integrais ou de cereais da moda; o açúcar refinado pelo açúcar de coco, pelo mel, agave ou xarope de tâmaras; trocamos a manteiga ou o óleo refinado pelo óleo de coco.

Em vez de fritar fazemos as rabanadas no forno e iludimo-nos achando que estamos a ingerir alternativas mais saudáveis e menos calóricas. Menos processadas? Talvez! Mais naturais? Também! Mas por vezes o doce típico do qual comeríamos apenas uma fatia para matar a gula, transforma-se num doce ainda mais calórico.

Ser nutricionalmente mais denso não  significa que não tenha calorias, para além de que dá-nos a falsa ilusão de que podemos comer o docinho todo, “afinal é saudável”. Acabamos com uma alternativa que muitas vezes em nada faz jus ao que em boa verdade queríamos comer, desconsolados, com muito mais calorias ingeridas, e ainda assim com vontade de comer “o verdadeiro”.

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Em termos nutricionais se há conselho que faz sentido nesta época de convívio social, familiar, de almoços, lanches e jantares especiais, é o da moderação.

Ter 4 eventos num mês não significa que o mês está perdido.  Significa que há uma gestão calórica para ajustar, porque convenhamos, não é o bacalhau cozido, nem o peru que nos baralham as contas.

  • Se sabemos que o almoço será mais calórico, porque não reduzimos as calorias do lanche e do jantar?
  • Se temos um lanche com os colegas de trabalho, porque não apostamos num almoço e num jantar mais leves nesse dia, ingerindo mais vegetais e proteínas magras, para não termos que deixar de provar aquele bolinho do qual temos tantas saudades?
  • Se sabemos que haverá a aletria quentinha e os mexidos acabados de fazer na sobremesa do jantar porque não moderamos o que colocamos no prato principal?

A nossa preocupação, seja no Natal ou em qualquer época do ano, não deveria estar centrada em substituir o leite pela bebida de aveia, a menos que tenhamos intolerâncias ou apreciemos o sabor; a nossa preocupação deveria direcionar-nos para sermos capazes de fazer as escolhas mais equilibradas, sem termos que abdicar do que gostamos, do sabor, da companhia e dos momentos.

Criar memórias que nos permitam viver de forma equilibrada em qualquer contexto, sem nos sentirmos demasiado restringidos ou a perder o controlo. Porque se ao longo do ano fomos fazendo boas escolhas, não será uma semana a deitar por terra aquilo que fomos construindo. E provavelmente a pressão mental que criaremos ao tentar resistir ao doce que nos diz tanto, deixar-nos-á menos saudáveis do que o açúcar e a farinha refinada que nele existiam.

No entanto, e por ser uma época de tantos excessos, de tanta comida disponível, a toda a hora, e de forma tão variada, devemos evitar os pensamentos do “perdido por cem, perdido por mil”.

O pensamento do “quando acabar não como mais” ou “já que ao almoço já comi bolo rei, só mais uns chocolatinhos também não farão assim tão mal.” Podemos provar de tudo, mas isso não significa que tenhamos que comer tudo, sempre.

  • Porque não servirmos o prato só com uma colherzinha daqueles docinhos que realmente apreciamos?
  • Porque não dividir a sobremesa com o parceiro ou colega
  • Porque não optar por ir degustando a cada dia uma das iguarias, como sobremesa do almoço por exemplo, depois de já ter garantido a saciedade com a ingestão de proteína e legumes suficientes para ficar saciado e para não se deixar levar pela gula?
  • Uma vez que esses alimentos apetecíveis são tão processados, porque não apostar numa alimentação mais simples, com alimentos no seu estado natural, no resto das refeições
  • Manter um bom aporte de alimentos ricos em fibras, vitaminas e minerais, tais como vegetais, hidratos complexos e proteínas magras vai garantir maior saciedade e provavelmente maior moderação na hora de fazer escolhas.

Não se prive, mas tente manter equilibrada a necessidade emocional e social de ingerir as iguarias desta época! Permita-se quando lhe fizer sentido, mas não se deixe levar pelo “não quero fazer desfeita” ou “comi porque todos estavam a comer”.

Crie as suas regras, escolhendo os momentos em que de facto lhe faz sentido ingerir algo especial. Aproveite esta época para criar memórias positivas e de satisfação, e não de frustração porque não pôde comer ou aproveitar.

E atendendo a que aumentamos a ingestão calórica, se temos mais energia disponível, porque não fazer umas caminhadas e passeios em família? E se em vez de treinar 2 vezes na semana, treinássemos 3 ou 4?  Não como forma de punição, mas como forma de rentabilizar a energia extra!

O Natal devia ser sobre família e amor e não sobre calorias. Mas uma vez que elas contam, sejamos capazes de fazer as melhores escolhas, sem exageros e sem consumições.

Boas festas!

Manuela Costa
Manuela Costa

PhD em Atividade Física e Saúde Mestrada em Ensino da Educação Física nos ensinos básicos e secundário Licenciada em Ciências do Desporto Professora e Formadora de Saúde, Fitness e Bem-estar Personal Trainer

Bibliografia

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