Massagem Transversal Profundas e as Tendinopatias

Uma tendinopatia, ou também por muitos conhecida por tendinite, é uma lesão no tendão, geralmente por estar sujeito a uma grande carga mecânica, caraterizada pela dor, edema e por vezes presença de inflamação.

É uma lesão prevalente em todas as idades e géneros, contudo é mais comum em pessoas ativas e, principalmente, atletas. O excesso de carga acima da capacidade do tendão é a principal causa.

No desporto, são lesões muito frequentes interferindo no desempenho do atleta podendo levar á sua interrupção da prática desportiva de forma temporária ou definitiva. Estima-se que esta patologia representa cerca de 30% das queixas do foro musculoesquelético.

O que é uma Tendinopatia?

Dicas CEFAD Tendinite

O conceito de tendinopatia sofreu evolução ao longo das últimas décadas. Tradicionalmente usava-se o termo tendinite para se referir à presença de dor nos tendões e zonas adjacentes como resultado, quase certo, de um processo inflamatório, consequência do excesso de carga ou sobreuso do próprio tendão.

As principais caraterísticas da lesão tendinosa são uma estrutura mais fraca pela desorganização dos tenócitos com aumento do crescimento da matriz extracelular com presença de fatores inflamatórios.

Contudo já se demonstrou a existência de dor nos tendões e zonas adjacentes com a ausência ou quase inexistência de processo inflamatório presente nos tecidos expostos a sobreuso, o que impulsionou a mudança da nomenclatura para tendinopatia. Atualmente usamos o termo tendinopatia para descrever uma variedade de situações dolorosas que se desenvolvem nos tendões e tecidos envolventes como resposta ao sobreuso. Associadas a esta lesão surgem mudanças histopatológicas como a degeneração e desorganização de fibras de colagénio, aumento do desenvolvimento celular e mínima inflamação.

A explicação fisiopatológica para as tendinopatias é de que estas são agressões repetitivas ao tendão. Um tendão que está constantemente a ser agredido, quer na sua atividade profissional quer na sua atividade física, nem sempre tem capacidade de se recuperar de forma autónoma levando assim a uma situação de lesão crónica. Existem duas teorias para o mecanismo lesional das tendinopatias: a mecânica e a vascular. A teoria mecânica afirma diz que a maior parte das lesões ocorrem devido a microtraumatismos de repetição, quer sejam na atividade profissional, desportiva ou de atividades do dia-a-dia. A teoria vascular afirma que a lesão ocorre devido á reduzida perfusão vascular nos tendões.

Como forma de atuar nesta lesão tão frequente e limitante, pode-se aplicar uma técnica de terapia manual, criada por James Cyriax, denominada de massagem transversal profunda.

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Recorrendo aos dados do Eurobarómetro do Desporto e Atividade Física de 20223, publicados muito recentemente, observa-se que Portugal ocupa o primeiro lugar no pódio em termos de inatividade física.

Massagem Transversal Profunda (MTP)

A massagem transversal profunda (MTP), é uma técnica manual aplicada aos tecidos moles que atua a nível dos tecidos mais profundos como músculo, tendão e ligamento. Tem como principais objetivos diminuir as aderências fibrosas resultantes de uma cicatriz ou processo de cicatrização, manter ou restaurar a mobilidade muscular sem dor e prevenir uma futura lesão muscular, tendinosa ou ligamentar. A sua aplicação promove uma reestruturação dos tecidos, um aumento da circulação sanguínea, uma analgesia temporária e um aumento da amplitude de movimento.

Numa fase aguda, os principais objetivos são evitar a formação de aderências e promover a formação de um tecido cicatricial móvel e resistente. Já numa fase crónica os objetivos principais são a quebra das aderências já formadas nos músculos e tendões.

A técnica em si consiste em produzir pequenas inflamações que ativem a restauração do tecido conetivo. É uma técnica que se aplica diretamente sobre a área dolorosa, o tecido lesionado, com uma fricção profunda no sentido transversal, perpendicular ás fibras. Geralmente utiliza-se o dedo indicador com o médio a dar suporte ou com o polegar.

Efeitos da MTP

Sendo uma técnica manual aplicada na zona especifica de lesão e dor, os seus efeitos serão maioritariamente locais sem alteração de nenhum sistema ou estrutura á distância.

Os seus principais efeitos são mecânicos, nomeadamente:

  • Hiperemia, aumento da dilatação e do volume de sangue no ponto de lesão. Com a massagem localizada ocorre um aumento da circulação sanguínea local o que gera uma diminuição a dor. Este fenómeno parece dever-se ao aumento da velocidade de destruição da substância P de Lewis que é o fator responsável pela dor.
  • Aumento do fluxo sanguíneo local com aumento consecutivo da perfusão dos tecidos e aumento da temperatura local. Este aumento do fluxo sanguíneo associado á fricção da técnica aplicada torna a zona mais ruborizada.
  • Saída de substâncias tóxicas e lesivas da zona em tratamento.
  • Estímulo dos mecanorreceptores: a aplicação de uma técnica manual vai gerar impulsos mecânicos que precedem os impulsos sensitivos. Como a informação mecânica é processada em primeiro lugar os impulsos sensitivos indicadores da dor que chegam posteriormente não conseguem transmitir a informação dolorosa resultando na diminuição da mesma.
  • Promove uma cicatrização com a orientação correta das fibras evitando fibroses. Esta técnica, através do movimento que induz nos tecidos vai quebrar as aderências em via de formação e as que, eventualmente, se estarão a formar entre o ligamento e o osso. Alem disso evita a formação de uma cicatrização excessiva com crescimento exacerbado de colagénio.
  • Libertação de endorfinas. Não é um efeito mecânico, mas sim químico, que ocorre com a aplicação da MTP. Esta libertação desta substância gera uma melhoria da sensação de bem-estar e felicidade, mas também tem um componente de analgésico gerando um alívio da tensão muscular e controlo da dor.

Princípios de Aplicação da Técnica

Dicas CEFAD Massagem Transversal-
  • Aplicada no local exato de lesão e/ou dor. Quanto mais localizada for a aplicação da técnica, mais efetivos são os resultados no final.
  • A direção do movimento deve ser transversal à orientação das fibras da estrutura lesada.
  • A massagem deve ser profunda permitindo penetrar mais fundo que o tecido subcutâneo. O grau de profundidade depende da fase da lesão, da irritabilidade e do feedback do paciente.
  • O início da pressão deve ser lento e gradual de modo a respeitar o desconforto inicial causada, até atingir a analgesia.
  • A amplitude de movimento deve ser mínima, mas suficiente para abranger toda a estrutura lesada
  • Os dedos e a pele devem mover-se em conjunto nunca deslizando um sobre o outro. Para conseguir atuar sobre os tecidos moles lesados e recuperar a sua mobilidade, o dedo do terapeuta e a pele do paciente têm de estar intimamente unidos e deslizar, através do tecido celular subcutâneo, sobre os elementos anatómicos profundos lesados.
  • Técnica aplicada sem recurso a creme, gel ou qualquer lubrificante para permitir que o dedo e a pele sejam um só.
  • Geralmente utiliza-se o dedo indicador com o reforço do dedo médio por cima deste. Um dedo cruza sobre o outro para servir de ponto de apoio. Quando existem zonas que impliquem maior força e tensão sobre os tecidos pode-se recorrer ao polegar e em zonas mais extensas e lesão com maior área a tratar, podem-se usar os últimos quatro dedos e aplicar a técnica da mesma forma. A técnica é aplicada com a ponta dos dedos com as articulações interfalângicas distais em flexão
  • Na maioria das vezes, os dedos, a mão e o antebraço do terapeuta devem realizar movimentos em paralelo com o movimento da fricção como se de apenas um segmento se tratasse
  • O paciente deve ser posicionado de forma confortável e estável, se dor e com a lesão acessível.
  • A estrutura lesada deve de estar sob a tensão pretendida mediante o tipo de tecido a tratar. Se a lesão ocorrer no corpo do tendão ou na junção miotendinosa, entre o tendão e o músculo, esta zona deve de estar sem tensão. Se, por sua vez, a zona lesionada ocorrer num tendão com bainha sinovial, neste caso, devem ser colocados sob tensão ou alongamento de modo a que a técnica se consiga aplicar no tendão.
  • O tempo de aplicação da técnica vai depender da fase da lesão e da tolerância do próprio paciente. Numa fase aguda, 3 a 4 minutos devem ser suficientes, já em casos crónicos podem ser necessários 10 a 15 minutos. O número de sessões e a sua periodicidade vão depender da tolerância do próprio paciente, da lesão em si e da resposta que o organismo vai dando.

Indicações

  • Lesões tendinosas: tendinopatias, tenossinovites, entesite
  • Lesões musculares: roturas musculares, traumatismo muscular recente, sequelas de lesões musculares
  • Lesões ligamentares: entorse aguda ou cronica
  • Lesões fasciais: capsulite
  • Cicatrizes antigas
  • Contraturas musculares
  • Patologia capsulo-ligamentar
  • Rigidez pós-traumática

Contraindicações

  • Lesões graves em fase aguda: fratura, fissura, luxação
  • Rotura muscular completa e extensa
  • Rotura completa tendinosa
  • Rotura ligamentar completa em fase aguda
  • Bursites
  • Artrites inflamatórias
  • Infeções bacterianas
  • Artrite traumática
  • Calcificações dos tecidos moles
  • Compressão nervosa: ciatalgia, braquialgia
  • Zonas de paquete vascular nervoso: virilha, axila e oco poplíteo
  • Lesões e infeções da pele
  • Inflamações musculares diversas não traumáticas
  • Neoplasias e tumores
  • Alterações de sensibilidade
  • Terapia anticoagulante
  • Tromboflebite, trombose venosa profunda e outros problemas do foro vascular

Considerações finais

Em suma, a massagem transversal profunda visa manter a mobilidade no interior das estruturas do tecido, restaurando a elasticidade dos ligamentos, tendões e músculos, impedindo a formação de cicatrizes aderentes. O facto de ser realizada no sentido transversal ao das suas fibras permite melhorar a circulação sanguínea e o retorno dos fluidos.

“A fricção profunda constitui um método para evitar cicatrizes dolorosas, particularmente para os músculos (seguida de movimento ativo), ligamentos (seguida de movimento passivo) e para os tendões (seguida de repouso). “ – J. Cyriax

Daniela Costa
Daniela Costa

Licenciada em Fisioterapia pela Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto (ESTSP) C.O em Osteopatia pela Escuela de Osteopatia de Madrid Formadora no curso de Massagem Terapêutica Desportiva

Bibliografia:

  1. Alex Scott, L. B. (November de 2015). Tendinopathy: Update on Pathophysiology. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy.
  2. Antonio Frizziero, S. T. (2014). The role of eccentric exercise in sport injuries rehabilitation. British medical bulletin.
  3. Brett Andres, G. M. (2008). Treatment of Tendinopathy: What Works, What Does Not, and What is on the Horizon. Clinical Orthopaedics and Related Research.
  4. Cyriax, J. (1992). Cyriax’s Illustrated Manual of Orthopaedic Medicine. Butterworth Heinemann.
  5. Geoffroy Nourissat, F. B. (2015). Tendon injury: from biology to tendon repair. Nature Reviews Rheumatology.
  6. J I Wiegerinck, G. K. (2012). Treatment for insertional Achilles tendinopathy: a systematic review. Knee Surgery Sports Traumatology Arthroscopy.

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